Repasse médico: o que é e como calcular na clínica
Entenda o que é repasse médico, os modelos mais usados e como calcular com glosas, taxas e impostos, com exemplo prático e cuidados no contrato.
Equipe Stenci19 de agosto de 20269 min de leitura
Repasse médico é a parte do valor de cada atendimento que a clínica paga ao profissional que o realizou. Para calcular, você define a base (o que entra na conta), aplica a regra combinada (percentual ou valor fixo), desconta o que o contrato prevê, como glosas, taxas e retenções, e paga no prazo acordado. Parece simples, mas cada detalhe mal definido vira discussão no fim do mês. Neste artigo você vê os modelos de repasse, as diferenças entre particular e convênio, o que pode ser descontado, um exemplo de cálculo e o que deixar claro no contrato.
O que é repasse médico
Em muitas clínicas, o paciente paga a clínica, e não o profissional. Na consulta particular, o dinheiro entra no caixa da recepção. No convênio, a operadora paga a clínica semanas depois, pelo lote faturado. O repasse é o acerto entre a clínica e o profissional sobre esse valor.
A clínica fica com a parte que cobre a estrutura: sala, recepção, sistema, equipamentos, materiais e administração. O profissional recebe a parte dele pelo trabalho realizado. A proporção entre as duas partes é uma negociação comercial, não existe um número certo.
O repasse vale para médicos, mas também para psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e outros profissionais que atendem na clínica sem salário fixo.
Antes do modelo, defina a base de cálculo
A maior parte das discussões sobre repasse não vem do percentual, vem da base. Duas perguntas precisam de resposta antes de qualquer conta.
Bruto ou líquido?
- Valor bruto: o repasse incide sobre o valor cobrado do paciente ou da tabela do convênio, sem desconto nenhum.
- Valor líquido: o repasse incide sobre o que sobrou depois de descontos combinados, como glosas, taxa de cartão ou impostos sobre a receita.
Nenhuma das duas é errada. O importante é que as duas partes saibam qual é usada e o que exatamente sai da base.
Pelo que foi produzido ou pelo que foi recebido?
- Por produção: o profissional recebe pelos atendimentos realizados no mês, mesmo que o convênio ainda não tenha pago.
- Por recebimento: o profissional recebe quando o dinheiro entra na conta da clínica. Consulta de convênio feita em março pode entrar no repasse de maio.
Pagar por produção adianta dinheiro ao profissional e deixa o risco de atraso e glosa com a clínica. Pagar por recebimento protege o caixa, mas exige um demonstrativo mais detalhado, porque o profissional precisa enxergar o que já foi pago e o que ainda está pendente.
Os modelos de repasse mais usados
Percentual sobre o atendimento
O profissional recebe uma porcentagem do valor de cada atendimento. É o modelo mais comum e o mais fácil de explicar. Funciona bem para consultas e procedimentos sem custo alto de material.
Valor fixo por procedimento
O profissional recebe um valor definido para cada procedimento, independente do preço cobrado. Faz sentido quando o preço varia muito entre convênios ou quando o procedimento usa material caro que é da clínica.
Por produção com faixas
O percentual muda conforme o volume do mês. Por exemplo, um percentual até certo número de atendimentos e outro acima dele. Incentiva a produção, mas exige regras muito claras sobre o que conta para a faixa.
Modelo misto
Combina regras: percentual para consultas, valor fixo para procedimentos, percentual diferente por convênio. É o modelo mais justo quando a clínica tem mix variado, e o mais difícil de calcular sem sistema.
| Modelo | Quando faz sentido | Cuidado |
|---|---|---|
| Percentual | Consultas e serviços de valor parecido | Definir se incide sobre bruto ou líquido |
| Valor fixo por procedimento | Procedimentos com material caro ou preço variável | Revisar os valores quando a tabela mudar |
| Por produção com faixas | Incentivar volume | Deixar claro o que conta para cada faixa |
| Misto | Clínica com muitos tipos de atendimento | Documentar cada regra por escrito |
Particular e convênio pedem regras diferentes
Atendimento particular
O dinheiro entra na hora, mas nem sempre inteiro. Pagamento no cartão tem taxa, e o parcelado pode levar meses para cair na conta. Defina se a taxa do cartão sai da base do repasse e se o parcelamento é repassado conforme as parcelas entram ou de uma vez.
Descontos concedidos ao paciente também precisam de regra. Se a recepção deu desconto, ele reduz o repasse do profissional ou só a parte da clínica?
Atendimento por convênio
Cada operadora tem sua tabela e seu prazo de pagamento. Pela Lei 9.656/1998, o contrato entre a operadora e o prestador precisa definir os valores dos serviços e os prazos e procedimentos para faturamento e pagamento. Use esses prazos para explicar ao profissional quando cada convênio costuma entrar no repasse.
Muitas clínicas usam percentuais diferentes por convênio, porque o valor pago por consulta varia bastante entre as operadoras.
O que pode ser descontado do repasse
Glosas
Quando o convênio glosa um atendimento, a clínica não recebe aquele valor. O contrato deve dizer se a glosa sai do repasse, em que momento sai e o que acontece se a clínica reverter a glosa em recurso. O mais transparente é descontar só a glosa mantida depois do recurso e devolver ao profissional o que for recuperado. Vale lembrar que muitas glosas nascem de erro de guia, e reduzir esse problema é bom para os dois lados. Veja como evitar glosas no faturamento TISS.
Taxas de cartão e antecipação
Se a clínica antecipa recebíveis de cartão, o custo da antecipação é uma decisão dela. Cobrar isso do profissional sem previsão no contrato gera atrito.
Impostos e retenções
Aqui não existe regra única. O que incide depende do regime tributário da clínica, de o profissional receber como pessoa física ou por meio de empresa, do município e do tipo de serviço. A legislação prevê retenções na fonte em alguns pagamentos a prestadores de serviço, e algumas clínicas também descontam da base parte dos impostos que pagam sobre a receita. Defina isso com o seu contador antes de fechar o modelo e escreva no contrato como a conta é feita.
Materiais e medicamentos
Materiais, medicamentos e taxas de sala cobrados do convênio normalmente pertencem à clínica e não entram na base do repasse. Se entrarem, deixe escrito.
Exemplo de cálculo
O exemplo abaixo é fictício. Os valores, percentuais e taxas servem só para mostrar a mecânica da conta. Não use como referência de mercado.
Imagine uma profissional com este contrato:
- consultas particulares: 60% sobre o valor líquido da taxa de cartão;
- consultas do Convênio A: 70% sobre o valor recebido, descontada a glosa mantida;
- procedimento X: valor fixo de R$ 180,00 por procedimento realizado.
No mês, ela fez 40 consultas particulares, 50 consultas pelo Convênio A e 12 procedimentos X.
| Linha | Valor bruto | Desconto | Base | Regra | Repasse |
|---|---|---|---|---|---|
| Consultas particulares (40 × R$ 300,00) | R$ 12.000,00 | Taxa de cartão: R$ 225,00 | R$ 11.775,00 | 60% | R$ 7.065,00 |
| Consultas Convênio A (50 × R$ 140,00) | R$ 7.000,00 | Glosa mantida: R$ 280,00 | R$ 6.720,00 | 70% | R$ 4.704,00 |
| Procedimento X (12 execuções) | Não se aplica | Não se aplica | 12 procedimentos | R$ 180,00 cada | R$ 2.160,00 |
| Total antes das retenções | R$ 13.929,00 |
Depois desse total, entram as retenções legais que se aplicarem ao caso, conforme orientação do contador.
Repare em dois pontos. Se o contrato fosse por recebimento e o Convênio A pagasse só no mês seguinte, os R$ 4.704,00 sairiam deste repasse e entrariam no próximo. E se a clínica revertesse a glosa de R$ 280,00 em recurso, o profissional receberia depois os 70% desse valor.
O que deixar por escrito no contrato
O contrato é o que evita discussão no fechamento. Ele deve responder, sem ambiguidade:
- qual o modelo e o percentual ou valor por tipo de atendimento e por convênio;
- se a base é bruta ou líquida, e o que sai dela;
- se o repasse é por produção ou por recebimento;
- como tratar glosa, glosa revertida, desconto ao paciente e parcelamento;
- data de fechamento, data de pagamento e prazo para contestar o demonstrativo;
- qual documento o profissional emite para receber;
- como e quando as regras podem ser revistas.
Forma de contratação
A forma de contratação tem consequências trabalhistas e tributárias. A CLT considera empregado quem presta serviço não eventual, sob dependência do empregador e mediante salário. Contratar o profissional como autônomo ou por meio de empresa pede que a relação seja de fato autônoma, e esse tema é frequentemente discutido na Justiça do Trabalho. Um advogado trabalhista deve revisar o modelo antes da assinatura.
Ética médica
O Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018) tem um capítulo sobre remuneração. Entre outros pontos, ele veda ao médico receber remuneração por paciente encaminhado ou por atendimento não prestado, incluir na cobrança o nome de quem não participou do ato e praticar dupla cobrança pelo mesmo ato. Na prática, o repasse deve estar ligado ao atendimento que o profissional de fato realizou, nunca a indicação de pacientes. Na dúvida, consulte um advogado com experiência na área da saúde.
Transparência: o demonstrativo de repasse
O profissional confia no repasse quando consegue conferir. Entregue um demonstrativo por período com:
- cada atendimento, com data, tipo e convênio;
- valor bruto, descontos, base e regra aplicada;
- itens pendentes de recebimento, no modelo por recebimento;
- glosas descontadas e glosas revertidas;
- total do período e retenções.
Evite expor dados clínicos no demonstrativo. Para conferir o repasse, data, tipo de atendimento e convênio bastam.
Fazer isso em planilha funciona com poucos profissionais e regras simples. Com modelo misto e vários convênios, a chance de erro cresce a cada fechamento. Na Stenci, o repasse aos profissionais é calculado pelo próprio sistema, dentro do financeiro, o que tira a conta manual do fechamento.
Erros comuns no repasse
- Combinar o percentual e não definir a base.
- Descontar glosa sem mostrar qual atendimento foi glosado.
- Não devolver ao profissional a glosa revertida.
- Mudar a regra no meio do mês sem registro.
- Fechar o repasse antes de conferir o caixa e os recebimentos do período.
Conclusão
Calcular o repasse médico corretamente depende menos da conta e mais das regras: base de cálculo definida, modelo claro para particular e convênio, descontos previstos em contrato e um demonstrativo que o profissional consegue conferir. Com isso resolvido, o fechamento vira rotina e deixa de ser negociação todo mês. Para as questões tributárias e trabalhistas, conte com o seu contador e um advogado. Se quiser ver como a Stenci calcula o repasse na prática, fale com a gente.